Embora o tabagismo continue sendo o principal fator de risco, exposições ambientais e alterações genéticas também podem contribuir para o desenvolvimento da doença.
Data: 21 de outubro de 2026
Categoria: Saúde e Ciência
O câncer de pulmão é frequentemente associado ao consumo de cigarros, mas a doença também pode atingir pessoas que nunca fumaram. A exposição à poluição atmosférica, ao gás radioativo radônio e a determinadas substâncias presentes no ambiente, além da predisposição genética, está entre os fatores que ajudam a explicar esses casos.
O tema ganhou destaque após a publicação de uma reportagem do programa Fantástico, da TV Globo, em 20 de outubro de 2026. O assunto chama a atenção para a importância de compreender que o desenvolvimento do câncer envolve diferentes fatores e não depende exclusivamente do histórico de tabagismo.
Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), a estimativa brasileira para o período de 2026 a 2028 é de 35.380 novos casos de câncer de pulmão por ano, considerando homens e mulheres. O número reforça a importância da prevenção, da identificação dos fatores de risco e do diagnóstico adequado.
Poluição do ar pode aumentar o risco da doença
A poluição atmosférica é um dos fatores ambientais associados ao câncer de pulmão. A exposição prolongada a partículas finas e a determinados compostos presentes na fumaça de veículos, indústrias e queimadas pode contribuir para danos às células do sistema respiratório.
Entre os poluentes que merecem atenção estão as partículas finas conhecidas como PM2,5, capazes de penetrar profundamente nos pulmões. A exposição contínua a esses contaminantes está relacionada a efeitos prejudiciais à saúde respiratória e ao aumento do risco de alguns tipos de câncer.
A poluição também pode ocorrer dentro das residências, especialmente quando há fumaça proveniente da queima de combustíveis, ventilação inadequada ou exposição à fumaça de outras pessoas que fumam.
De acordo com a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), além do tabagismo, a poluição do ar, a fumaça passiva, as emissões de motores a diesel e a exposição ao amianto estão entre os fatores associados ao desenvolvimento de câncer de pulmão.
Isso não significa que toda pessoa exposta a esses agentes desenvolverá a doença. O risco depende de fatores como a intensidade e a duração da exposição, além das características individuais.
Radônio: um gás invisível que merece atenção
Outro fator relevante é o radônio, um gás radioativo que ocorre naturalmente devido à decomposição de elementos presentes em rochas e solos.
O gás não possui cheiro, cor ou sabor, o que dificulta sua identificação sem equipamentos específicos. Em ambientes fechados, como casas, locais de trabalho e construções subterrâneas, ele pode atingir concentrações elevadas dependendo das características geológicas da região e da ventilação do imóvel.
Quando inaladas, as partículas radioativas produzidas pela decomposição do radônio podem danificar o DNA das células que revestem as vias respiratórias. Com o passar do tempo, esses danos podem contribuir para o desenvolvimento do câncer de pulmão.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que o radônio esteja relacionado a aproximadamente 3% a 14% dos casos de câncer de pulmão, dependendo dos níveis médios de exposição e da prevalência do tabagismo em cada país.
O risco é ainda maior para fumantes, pois a combinação entre o cigarro e a exposição ao radônio potencializa os efeitos prejudiciais.
A OMS destaca que a concentração do gás pode ser medida por detectores específicos. Quando níveis elevados são identificados, medidas como vedação de fissuras e melhoria da ventilação podem ajudar a reduzir a exposição.
Qual é o papel da genética?
A predisposição genética também pode influenciar o desenvolvimento do câncer de pulmão em pessoas que nunca fumaram.
Algumas alterações genéticas podem aumentar a suscetibilidade de uma pessoa à doença, enquanto determinadas mutações adquiridas pelas células ao longo da vida podem contribuir diretamente para a formação de tumores.
A Agência Internacional de Pesquisa em Câncer já publicou estudos sobre variantes genéticas associadas à suscetibilidade ao câncer de pulmão, incluindo pesquisas relacionadas ao gene ATM, envolvido em mecanismos de reparo do DNA.
Além disso, alguns tumores pulmonares apresentam alterações moleculares específicas, que podem ajudar os médicos a caracterizar a doença e selecionar tratamentos direcionados.
Entretanto, ter predisposição genética não significa que uma pessoa necessariamente desenvolverá câncer. Da mesma forma, nem todos os casos em pessoas que nunca fumaram podem ser explicados por uma única alteração genética.
Os pesquisadores continuam investigando como fatores hereditários, alterações celulares e exposições ambientais interagem no desenvolvimento da doença.
Por que pessoas que nunca fumaram podem desenvolver câncer de pulmão?
O câncer surge quando células acumulam alterações que comprometem os mecanismos responsáveis por controlar seu crescimento e sua multiplicação.
Essas alterações podem ocorrer por diferentes motivos, incluindo exposições ambientais, processos biológicos relacionados ao envelhecimento e características genéticas.
Entre os fatores associados ao câncer de pulmão em não fumantes estão:
- Poluição atmosférica: exposição prolongada a partículas e substâncias cancerígenas presentes no ar.
- Radônio: gás radioativo natural que pode se acumular em ambientes fechados.
- Fumo passivo: inalação da fumaça produzida pelo consumo de tabaco por outras pessoas.
- Exposição profissional: contato com agentes como amianto, sílica, arsênio e determinadas emissões industriais.
- Predisposição genética: variantes hereditárias e outras alterações moleculares que podem influenciar o risco da doença.
Em muitos casos, não é possível identificar uma causa isolada. A ocorrência da doença pode resultar da combinação de diferentes fatores, e algumas situações permanecem sem uma explicação definitiva.
Quais sinais merecem atenção?
O câncer de pulmão pode permanecer sem sintomas nas fases iniciais, o que dificulta sua identificação precoce. Quando aparecem, os sinais podem incluir tosse persistente, tosse com sangue, dor no peito, falta de ar, rouquidão e perda de peso sem explicação aparente.
Esses sintomas também podem ocorrer em outras doenças, portanto não confirmam, por si só, a presença de um tumor.
Pessoas que apresentam sintomas persistentes devem procurar avaliação médica. A investigação pode envolver exames de imagem e outros procedimentos, conforme a avaliação clínica.
O rastreamento com tomografia computadorizada de baixa dose é recomendado para determinados grupos de alto risco, conforme critérios médicos específicos. Ele não deve ser confundido com a realização indiscriminada de exames em toda a população.
Prevenção continua sendo fundamental
Embora nem todos os casos possam ser evitados, algumas medidas ajudam a reduzir o risco de câncer de pulmão.
Não fumar e evitar a exposição à fumaça do tabaco continuam sendo as principais estratégias de prevenção. Também é importante reduzir, sempre que possível, a exposição a poluentes atmosféricos e a substâncias cancerígenas presentes no ambiente de trabalho.
Em locais onde existe possibilidade de acúmulo de radônio, a medição dos níveis do gás pode ajudar a identificar situações que exigem intervenções.
A adoção de medidas de segurança ocupacional, a fiscalização da qualidade do ar e políticas públicas de redução da poluição também desempenham um papel importante na proteção da saúde.
Conscientização sobre a doença
O câncer de pulmão em pessoas que nunca fumaram demonstra que a prevenção precisa considerar tanto os hábitos individuais quanto as condições ambientais e os fatores biológicos.
O tabagismo permanece como o principal fator de risco, mas não é o único. A poluição, o radônio, as exposições profissionais e a predisposição genética ajudam a explicar por que a doença também aparece em pessoas sem histórico de consumo de cigarros.
Ampliar o acesso à informação, reduzir exposições evitáveis e procurar atendimento diante de sintomas persistentes são medidas importantes para enfrentar o problema.
Referências
1. G1 — Fantástico.
Poluição, genética e radônio: o que explica o aumento do câncer de pulmão em não fumantes. Publicado em 20 de outubro de 2026.
2. Instituto Nacional de Câncer (INCA).
Câncer de pulmão — versão para a população. Informações sobre fatores de risco e estimativas de novos casos no Brasil.
Link: https://www.gov.br/inca/pt-br/assuntos/cancer/tipos/pulmao/versao-para-populacao
3. Organização Mundial da Saúde (OMS).
Lung cancer. Informações sobre fatores de risco, prevenção e diagnóstico.
Link: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/lung-cancer
4. Organização Mundial da Saúde (OMS).
Radon and health. Informações sobre os riscos do radônio, exposição em ambientes fechados e formas de redução.
Link: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/radon-and-health
5. Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC).
Lung cancer. Informações sobre a relação entre tabagismo, poluição e outros fatores de risco.
Link: https://www.iarc.who.int/cancer-type/lung-cancer/
6. Jornal Brasileiro de Pneumologia / SciELO.
Exposição ao radônio: uma importante causa de câncer de pulmão em não fumantes. Revisão científica publicada em 2023.
Link: https://www.scielo.br/j/jbpneu/a/C3xDNCCjT7ZSzQKrC5YsVfk/?lang=pt
7. Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC).
Genetic variant could identify those more susceptible to lung cancer. Publicado em 11 de maio de 2020.
Nota editorial: reportagem reformulada com redação própria e informações complementares de fontes institucionais e científicas. As referências devem ser verificadas antes da publicação, e a reportagem original deve ser creditada como fonte de pauta. Os dados médicos não substituem avaliação profissional.



